sábado, 6 de abril de 2013
Poemas do Poeta Francês Paul Éluard
“Liberdade”, de Paul Éluard
Liberdade
Nos meus cadernos de estudante
Na escrivaninha e nas árvores
Na areia nevada
Escrevo o teu nome
Nas páginas lidas
Em todas as páginas brancas
Pedra sangue papel ou cinza
Escrevo o teu nome
Nas imagens douradas
Nas armas dos guerreiros
Na coroa dos reis
Escrevo o teu nome
Na selva e no deserto
Nos ninhos entre as giestas
No eco da minha infância
Escrevo o teu nome
Nos meus trapos de caloiro
No açude de sol bafiento
No lago de lua esperta
Escrevo o teu nome
Nos campos no horizonte
Nas asas dos passarinhos
No moinho tenebroso
Escrevo o teu nome
Em cada sopro da manhã
No mar e nos navios
Na insensata montanha
Escrevo o teu nome
Na espuma das nuvens
E nos suores da borrasca
Na chuva densa e insípida
Escrevo o teu nome
Nas formas cintilantes
Nas cores dos sinos
Na verdade física
Escrevo o teu nome
Nos caminhos conscientes
Nas estradas estendidas
Nas praças que trasbordam
Escrevo o teu nome
Na lâmpada que se acende
E naquela que se apaga
Nas minhas razões reunidas
Escrevo o teu nome
No fruto cortado em dois
Do espelho e do meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo o teu nome
No meu cão glutão e terno
De orelhas levantadas
Na sua pata desastrada
Escrevo o teu nome
No limiar da minha porta
Nos objectos familiares
No rolo de fogo sagrado
Escrevo o teu nome
Em toda carne acordada
Na testa dos meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo o teu nome
Na janela de surpresas
E nos lábios comoventes
Mais longe que o silêncio
Escrevo o teu nome
Nos refúgios destruídos
Nos meus faróis extintos
Nos muros do meu tédio
Escrevo o teu nome
Na vacuidade sem desejo
Na desnuda solidão
Nas escadas da morte
Escrevo o teu nome
Na saúde reencontrada
No risco extraviado
Na fé sem recordação
Escrevo o teu nome
E pelo poder duma palavra
Recomeço a minha vida
Nasci para te conhecer
Para te nomear.
Paul Eluard
in Poésies et vérités, 1942
Tradução: Fernando Oliveira
A Curva dos Teus Olhos
A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.
Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.
Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.
Paul Eluard, in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa
A de Sempre, Toda Ela
Se eu vos disser: «tudo abandonei»
É porque ela não é a do meu corpo,
Eu nunca me gabei,
Não é verdade
E a bruma de fundo em que me movo
Não sabe nunca se eu passei.
O leque da sua boca, o reflexo dos seus olhos
Sou eu o único a falar deles,
O único a ser cingido
Por esse espelho tão nulo em que o ar circula
[através de mim
E o ar tem um rosto, um rosto amado,
Um rosto amante, o teu rosto,
A ti que não tens nome e que os outros ignoram,
O mar diz-te: sobre mim, o céu diz-te: sobre mim,
Os astros adivinham-te, as nuvens imaginam-te
E o sangue espalhado nos melhores momentos,
O sangue da generosidade
Transporta-te com delícias.
Canto a grande alegria de te cantar,
A grande alegria de te ter ou te não ter,
A candura de te esperar, a inocência de te
[conhecer,
Ó tu que suprimes o esquecimento, a esperança e
[a ignorância,
Que suprimes a ausência e que me pões no mundo,
Eu canto por cantar, amo-te para cantar
O mistério em que o amor me cria e se liberta.
Tu és pura, tu és ainda mais pura do que eu
[próprio.
Paul Eluard, in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa
O Amor é o Homem Inacabado
Todas as árvores com todos os ramos com todas
[as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas
[amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas
[obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos
[lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os
[olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
O amor é o homem inacabado.
Paul Eluard, in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa
Ó Meus Irmãos Contrários
Ó meus irmãos contrários que guardais nas vossas
[pupilas
A noite infusa e o seu horror
Onde vos deixei eu
Com vossas pesadas mãos no azeite preguiçoso
Dos vossos actos antigos
Com tão pouca esperança que'a morte tem razão
Ó meus irmãos perdidos
Eu vou para a vida tenho aparência de homem
Para provar que o mundo é feito à minha medida
E não estou só
Mil imagens de mim multiplicam a luz
Mil olhares semelhantes igualam a carne
É a ave é a criança é a rocha é a planície
Que se misturam a nós
O ouro desata a rir ao ver-se fora do abismo
A água o fogo despem-se por uma única estação
Já não há eclipse na fronte do universo.
Paul Eluard, in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa
Gritar
Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e
[escreviam
Demasiado baixo
Fiz retroceder os limites do grito
A acção simplifica-se
Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhe destinava um lugar perante mim
Com um grito
Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver
Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem
E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria
E esse fogo nu que me pesa
Torna a minha força suave e dura
Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos
Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.
Paul Eluard, in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa
De Um e de Dois, de Todos
Sou o espectador o actor e o autor
Sou a mulher o marido e o filho
E o primeiro amor e o derradeiro amor
E o furtivo transeunte e o amor confundido
E de novo a mulher seu leito e seu vestido
E seus braços partilhados e o trabalho do homem
E seu prazer em flecha e a fêmea ondulação
Simples e dupla a carne nunca se exila
Pois onde começa um corpo ganho eu forma e
[consciência
E mesmo quando na morte um corpo se desfaz
Eu repouso em seu cadinho desposo o seu
[tormento
Sua infâmia me honra o coração e a vida.
Paul Eluard, in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa
A Morte o Amor a VidaJulguei que podia quebrar a profundeza a
[imensidade
Com o meu desgosto nu sem contacto sem eco
Estendi-me na minha prisão de portas virgens
Como um morto razoável que soube morrer
Um morto cercado apenas pelo seu nada
Estendi-me sobre as vagas absurdas
Do veneno absorvido por amor da cinza
A solidão pareceu-me mais viva que o sangue
Queria desunir a vida
Queria partilhar a morte com a morte
Entregar meu coração ao vazio e o vazio à vida
Apagar tudo que nada houvesse nem o vidro
[nem o orvalho
Nada nem à frente nem atrás nada inteiro
Havia eliminado o gelo das mãos postas
Havia eliminado a invernal ossatura
Do voto de viver que se anula
Tu vieste o fogo então reanimou-se
A sombra cedeu o frio de baixo iluminou-se de
[estrelas
E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente
[para a luz
A vida tinha um corpo a esperança desfraldava
[as suas velas
O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros
[tempos
Os campos estão lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara e a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite
A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estradas cruzam-se sempre
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.
Paul Eluard, in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa
Salvador Dali
É esticando a corda das cidades que desbotam
Que o soltar dos sexos nas províncias
Faz crescer os sentimentos decrépitos do pai
Na busca duma nova vegetação
Onde as noites em combustão
Proíbam ao local de mostrar o intuito do nariz
É lendo as sementes imperceptíveis dos desejos
Que a agulha cessa com delicadeza
Entre o último minuto da aranha e do narcótico
Na cerâmica do íris e do ponto de suspensão
Onde a agulha se amarra em torno da falsa coragem
Do dedo pudico e da paragem nas estações
É pavimentando as ruas com ninhos de pássaros
Que o piano confuso dos gigantes
Esquece em beneficio da fome
A grandeza da mudança dos cantos desmedidos
De dois seres que se afastam
É aceitando a serventia das ferramentas ferrugentas
Constatando apaticamente a boa fé do metal
Que as mãos se abrem às delicias dos perfumes
E outros pequenos diabos das festividades
No fundo dos bolsos riscados de vermelho
É agarrando-se a uma cortina de moscas
Que a enxuta pecadora se defende dos marinheiros
Besta e redonda como a maçã não se interessa pelo mar
A madeira que falta na floresta que nem ali está
O encontro que não aconteceu e para beber
A verdura nos copos e uma boca que não fora feita
Que para chorar uma arma único termo de comparação
Com a mesa com os copos com as lágrimas
E a sombra forja o esqueleto do cristal de rocha
É para não deixar vazios entre nós estes olhos nossos olhos
Que ela estende os seus braços nus
A garota sem jóias a garota nua de pele
Seria preciso para aqui e para além rochas e vagas
Mulheres para nos distrair e nos enroupar
Ou cerejas de esmeralda no leite do orvalho
Tantas madrugadas breves nas mãos
Tantos gestos maníacos para dissipar a insónia
Sob a trepidante noite da roupa
Face à escada em que cada degrau é o prato duma balança
Em frente dos pássaros treinados contra as correntes
A estrela pesada do bem-estar rasga as veias
Tradução: Fernando Oliveira
Este poema provém do tema intitulado : A vida imediata " de Paul Eluard- 1932 -
Man Ray
A agitação dum vestido que tomba
Depois um corpo simples sem nuvens
Venha assim confiar-me os seus charmes
Você que teve a sua parte de felicidade
E que muitas vezes chora o sinistro fado daquele que a fez feliz
Você que não tem vontade de pensar
Que nunca soube edificar um homem
Sem amar um outro
Nos espaços de marés dum corpo que se desnuda
À mama que se afigura ser crepúsculo
O olho passeia sobre as dunas distraídas
Onde as fontes guardam as unhas de mãos nuas
Vestígios da vanguarda nua face pálida sob as celhas do horizonte
Uma breve lágrima noiva do passado
Saber que o clarão foi fértil
Infantis andorinhas julgam que a terra é o céu
O quarto negro onde todos os calhaus do frio estão afiados
Não me digas que não tens medo
O teu olhar está ao nível do meu ombro
És bela demais para exaltar a castidade
No quarto negro onde mesmo o trigo
Nasce da gulodice
Ficas imutável
Estás só.
Tradução: Fernando Oliveira
Este poema provém do tema intitulado “ A rosa pública “ – 1933 – de Paul Eluard
George Braque
Um pássaro esvoaça,
Afastando as nuvens tal um véu inútil,
Nunca teve medo da luz,
Recluso do seu voo
Nunca teve sombra.
Conchas de colheitas despedaçadas pelo sol.
No bosque todas as folhas dizem que sim,
Elas só sabem dizer que sim,
A toda a questão toda resposta
E o orvalho gira no fundo desse sim.
Um homem de olhos suaves descreve o céu do amor.
Junta as maravilhas
Como num bosque as folhas,
Como os pássaros nas suas asas
E os homens no sono.
Tradução: Fernando Oliveira
Este poema provém do tema intitulado “ Capital da Dor “ 1924 de Paul Eluard
Max Ernst
Num canto o incesto hábil
Anda à volta da virgindade primaveril
Num canto o céu absorto
Com picos do tumulto deixa bolas brancas
Num canto o mais claro de todos os olhos
Esperam-se os peixes da angústia
Num canto o veículo de verdura do verão
Para sempre inerte e glorioso
No vislumbre da juventude
Das lâmpadas que ficaram acesas
A primeira mostra os seios que matam os insectos vermelhos
Tradução: Fernando Oliveira
Este poema provém do tema ‘ Repetições ‘ de Paul Eluard
- 1921 -
Nós fizemos a noite
Nós fizemos a noite
Acordado eu tomo a tua mão
nutrindo-te com todas as minhas forças
gravo na rocha a estrela da tua energia
com linhas profundas
onde a bondade do teu corpo germinará
Repito a tua voz escondida
a tua voz anunciada
Ainda gracejo da orgulhosa
que tu tratas como uma pedinte
dos malucos que respeitas
dos simples em quem te deleitas
E na minha cabeça que pouco a pouco se une à tua e à noite
fico maravilhado de tal mistério
tão parecido contigo e com tudo que amo
o que é continuamente invulgar
Tradução: Fernando Oliveira
- 1936-
Este poema foi extraído do tema intitulado “ Olhos férteis” Paul Eluard
A amorosa
Ela está de pé sobre as minhas pálpebras
e os seus cabelos se entrelaçam nos meus
Ela tem a forma das minhas mãos
e a cor dos meus olhos
Ela desaparece na minha sombra
Ela tem sempre os olhos abertos
e não me deixa dormir
Seus sonhos plenos de luz
fazem evaporar os sóis
Que me fazem rir, chorar e rir
Falar sem nada ter para dizer
Tradução: Fernando Oliveira
Este poema pertence ao tema intitulado “Capital da dor”
- entre 1914 et 1921 – de Paul Eluard
O fim do mundo
a André Breton
Os olhos cercados como as ruínas dos castelos
Um manto de valados entre ela e seu último olhar
Num delicioso dia de primavera
Quando as flores camuflam a terra
Aquele abandono de tudo
E os desejos dos outros à sua vontade
Sem que ela pense
A sua vã vida respira senão a vida
O seu peito não tem sombra e a face desconhece
Que o cabelo ondulado o embala obstinadamente.
Palavras que palavras preto ou Cévennes
Bambu respira ou coaxa
Falar é servir-se dos seus pés para caminhar
Das suas mãos para roçar os panos como um moribundo
Os olhos abertos não tem fechadura
Sem dificuldade temos na boca e nas orelhas
Uma marca de sangue não é um sol pesado
Nem a palidez uma noite sem sono que acaba.
A liberdade é tão incompreensível como a visita do médico
De que médico uma vela no deserto
No fundo do dia o ténue foco duma vela
A eternidade começou e acabará na cama
Mas para quem falas tu pois tu não sabes
Porque tu não queres saber
Pois não mais sabes
Por respeito
O que falar quer dizer.
Este poema provém do tema intitulado “ A vida imediata “
Tradução: Fernando Oliveira, do original – La fin du monde – de Paul Eluard
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